Bem-aventurado Tiago Alberione

Ópera Omnia

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Introdução

A quase meio século de distância da sua primeira parcial publicação, este livro, que aparece em nova edição melhorada, justifica sempre mais a fama que adquiriu e a definição que lhe é dada por subtítulo: História carismática da Família Paulina. Efetivamente, ele constitui o documento mais vibrante de nova experiência na Igreja, originada por carisma autêntico e encarnada numa instituição religiosa multiforme, justamente a Família Paulina.
Esse documento ilumina todas as vicissitudes pessoais do pe. Tiago Alberione, como homem e como Fundador, bem como as obras particulares que ele iniciou e animou. Podemos compará-lo a um Livro da Gênese, emerso do rio da história da Igreja, a meio caminho entre a hagiografia canônico-teológica de uma fundação eclesial. Como quer que seja, ele projeta luz autêntica sobre as motivações que guiaram a existência e as obras de homem entre os mais fecundos fundadores dos tempos modernos.
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1. Gênese e vicissitude do texto

A respeito do texto possuímos um testemunho de primeira mão, deixado pelo padre João Roatta em 1982:1
Nosso fundador escreveu Abundantes divitiae, livro-síntese das suas inspirações fundamentais, nas seguintes circunstâncias.
Aproximava-se o quadragésimo ano da nossa Congregação (1914-1954), e alguns de nós (Pe. [Valentino] Gambi, Pe. [Renato] Perino, Pe. [Giovanni] Roatta) pensou que era bom aproveitar da ocorrência para alguns aprofundamentos acerca da nossa vocação Paulina e acerca do nosso fundador: seja para uma tomada de consciência interna melhor, seja para falar deles ao público. Um dia eu mesmo [Pe. Roatta] apresentei essa idéia ao fundador, o qual me respondeu: 'Fazei o que o Espírito Santo vos inspira. Realmente, não escrevemos nem publicamos nada ainda; mas já me chegaram pedidos (de Pe. Guido Pettinati, na Argentina e de outros), visando a manifestar algo do que Deus fez entre nós; e creio mesmo que tenha chegado o momento para fazê-lo'.
Procuramos outros colaboradores e demos início ao trabalho, que se prolongou por diversos meses com muito empenho, até início de 1954.
A certa altura Pe. Alberione chamou-me e disse-me estas poucas palavras: 'Desejaria dar a conhecer isto, que me parece deveras importante: que depois de minha morte não se fale mais de mim, e sim somente de são Paulo; é ele o fundador, o modelo, o pai, o inspirador para nós. É necessário que isso transpareça do trabalho ao qual vos lançastes'. Assegurei-lhe que assim seria feito e continuamos o trabalho. Pouco tempo depois chamou-me novamente e tive uma surpresa: mostrou-me e depois entregoume uma série de originais em formato um tanto grande, escritos compactamente com sua caligrafia miúda; e disse-me: 'Julgai se podem servir'. Eram os manuscritos do que foi depois o livro Abundantes divitiae. Lemolos com notável interesse; mas com os trabalhos já abundantemente avançados, pouco pudemos aproveitar nos vários artigos; e tampouco nos foi possível apreender imediatamente o valor essencial das suas memórias.
Esses manuscritos permaneceram comigo até o término do nosso trabalho, quando saiu impresso o volumoso Lanço-me para frente (verão de 1954). Então ordenamos todo o material usado até aquele dia; e Pe. Majorino Povero, que colaborara na obra para o trabalho tipográfico, pediume que lhos desse para os conservar diligentemente, os supracitados manuscritos. Passei-lhos com satisfação. Vi reemergirem essas memórias muito mais tarde [1969], por ocasião do Capítulo geral especial, quando foram publicadas, a primeira vez, com o título Eu estou convosco, para uso interno sobretudo do Capítulo.
Relendo a seguir muitas vezes as páginas simples e despojadas de todo artifício de Abundantes divitiae, deime sempre mais conta da importância excepcional daquelas memórias para a nossa história, para o nosso carisma e para o caminho espiritual no qual Deus fez surgir e crescer nossa Família religiosa.
Casa Divino Mestre, Ariccia, 10 de janeiro de 1980.

G. Roatta.


O texto não é de leitura fácil, primeiramente porque constituise de anotações em diversos estratos. O primeiro forma-o um manuscrito (ms) constante de diversos fólios esparsos sem numeração fixa; o segundo consta de um datilografado (ds) que em diversos lugares afasta-se dos originais, mas com toda segurança tem a mesma paternidade alberoniana, e representa a segunda redação corrigida.
O ms compõe-se de 39 fólios: 18 em formato 18x24 cm; outros 18 em formato 11,3x17; 2 de 15x17,8 e 1 de 9,3x14,5 cm. Alguns desses fólios (4) são o resultado da justaposição de 2 fólios cortados e colados. Ademais desses 39 fólios, 29 são escritos numa só face; 7 são escritos em ambas as faces; 1 deles traz no verso os títulos das diversas entradas econômicas de novembro de 1952; outros dois têm trechos apagados (talvez de uma primeira redação). Assim, as faces escritas são 46 (mais duas apagadas). Mais: dos 39 fólios, 31 ostentam no alto numeração dupla, os outros 8 até três números distintos, escritos por mãos diversas, que tentaram pôr nas páginas uma ordem lógica ou histórica progressiva.
A primeira utilização do ms tinha por finalidade, como foi dito, a comemoração do 40º ano de fundação da Pia Sociedade de São Paulo. O pensamento do Pe. Alberione encontra-se expresso a esse respeito também em escritos paralelos contemporâneos, como o boletim interno San Paolo.2 O ms foi, portanto, utilizado parcialmente para a redação do volume Lanço-me para frente (1954), e em 1969 saiu impresso retocado no estilo, para uso dos participantes do Capítulo geral especial da Pia Sociedade de São Paulo e das Filhas de São Paulo, com o título Eu estou convosco.3
Em 1971 o texto viu a luz com o novo título de Abundantes divitiae gratiae suae: História carismática da Família Paulina(sigla AD), sob a direção de Pe. José Barbero, o qual publicou a primeira edição cuidadosamente revisada, com notas explicativas e com características históricas. Na segunda edição da obra (Roma, 1975, pp. 6-7), o mesmo organizador acrescentou notícias ulteriores a respeito da formação de AD, na qual conferia as duas redações do original, isto é, a manuscrita e a datilografada, buscando a concordância ou integrando os dois textos.
Nova edição crítica, acrescida de numerosos textos em apêndice, foi publicada em 1985 por Ezequiel Pasotti e Luiz Giovannini. Esta edição, inserida na nova série de Obras completas, foi realizada sobre os manuscritos e dotada de rigoroso aparato crítico.
Devendo executar nova edição, julgouse oportuno não adotar o texto conforme ao manuscrito e sim o sucessivo do datilografado, revisado e corrigido pelo Pe. Alberione, considerado, portanto, mais correspondente ao seu pensamento. Ao mesmo tempo foi aliviado o aparato crítico, excluindo do texto os sinais gráficos a não ser os expoentes numerais de notas, e conservando, ao invés, da edição de 1985, a riqueza de notas explicativas, bem como os textos acrescentados em apêndice, com a exclusão somente das minutas preparatórias de alguns deles.
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2. O título

A expressão Abundantes divitiae gratiae suae foi tomada da carta aos Efésios (2,7) e foi escrita a mão pelo Autor no cabeçalho do primeiro fólio ds. É expressão paulina cara a Alberione, e como em João 14,6, representa um dos gonzos da sua espiritualidade.
João e Paulo são indivisíveis, desde os inícios, na alma da Família Paulina. Alberione cita com freqüência os dois apóstolos em AD e todo o texto de Ef 2,5-7 em particular (AD 4) entende elencar juntas as riquezas da nova situação e as prodigalizadas ao fundador, evocadas no contexto de eventos e idéias correntes de final de 1800 até 1954. Falaremos adiante dessas riquezas; observemos agora que o título AD projeta luz bíblico-paulina sobre o que o Autor narra de si e da sua obra, sentida e vista qual obra de Deus.
As citações escriturísticas evocam caminho de fé, um como que êxodo bíblico; e por certo interpretam o desenvolvimento de obra querida do alto para o século XX; empreendimento guiado pela Providência (cf. AD 43, 45) até sua maturidade.
Na sua narração, antes ainda dos inícios humildes da instituição, Pe. Alberione tem presente a si mesmo, qual homem guiado (um semicego, guiado [por Deus]; e avançando é paulatinamente iluminado, a fim de que possa sempre avançar; AD 202); servo na obediência e, simultaneamente, homem consciente de ser guia espiritual, Mestre para os seus; sem flexões inúteis sobre o eu, e tampouco sem se comprazer nos seus próprios dons.
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3. Problemas de interpretação

Acenávamos ao nascimento de AD como escrito ocasional, solicitado para a celebração do 40º aniversário. Porém, essa circunstância já o punha na categoria dos memoriais, e propõe diversas interrogações: acerca de seu valor e a respeito dos seus critérios de leitura.

a) É autobiografia?

O Dictionaire de Spiritualité dedica notável estudo,4 para definir e exemplificar a Autobiografia, apresentando autores, títulos e critérios para a interpretação. Autobiografias célebres foram as de Gregório Nazianzeno5 e as Confissões de Agostinho do século IV; a Vida de Teresa de Jesus (de Ávila) e a História da vocação e da missão (ou História de um Peregrino) de Inácio de Loyola6 do século XVI. Mais próxima a nós a conhecidíssima História de uma alma, de Teresa Martin (do Menino Jesus), recentemente distinguida com o título de Doutora da Igreja, como sua grande Patrona, graças ao seu magistério espiritual contido nos seus escritos autobiográficos.
Porém, de preferência a esses exemplos, o modelo que Pe. Alberione segue mais de perto é, talvez, são Paulo, não no estilo, mas no espírito. Mesma a humildade do convertido, mesmo o reconhecimento a Cristo que o tirou das trevas para fazer dele instrumento da Luz; mesmo o intento final: glorificar a divina Misericórdia e fazer obra de evangelização. Também Paulo anunciava o evangelho narrando suas experiências espirituais. Devendo falar de visões, usava a terceira pessoa (cf. 2Cor 13,3-4). Sem dúvida as visões, embora minimizadas pelo Apóstolo pela fraqueza na qual se manifesta o poder do Senhor (cf. 12,9), são testemunhos de significado elevado, também se dificilmente comunicáveis a quem não tenha feito delas experiência.
Provavelmente Pe. Alberione encontrou-se com problema semelhante ao de são Paulo. A experiência de dons espirituais é por si irrepetível: narrá-la aos outros, que efeito produziria? Isso explica certa relutância a manifestar os segredos pessoais. A nós parece que a induzi-lo a escrever acerca desses argumentos, tenha sido o desejo de deixar a outros o melhor de si, ou seja, o que Deus realizou nele e por meio dele em favor da comunidade cristã. E se a Família Paulina é a destinatária dessa herança, estará em condições de compreender e apreciar AD no seu verdadeiro significado.

b) É uma história?

A essa altura podese perguntar se a atitude melhor para ler a obra AD não seja a mesma daquele que a escreveu. Pe. Alberione narra uma série de recordações, nas quais é possível captar os elementos, a direção e o sentido de uma história. E é uma história de Deus, mais do que uma doutrina ou uma vicissitude de homens, o que ele entende deixar à sua Família. Uma história que deve ser reconhecida como guiada do alto, uma história sagrada - que, todavia, deve ser desenvolvida com o empenho de quem segue.
Do ponto de vista crítico pode haver interrogativos: por exemplo, a respeito da história não verificável dos sonhos ou de outros particulares acerca da famosa noite de 1900 a 1901 (cf. AD 13). De qualquer modo, certas experiências fortes marcam a vida inteira. Talvez houve em Alberione, como em Paulo, uma forte iluminação de Cristo presente, capaz de mudar o curso de sua vida. Semelhante experiência do Espírito é o que na teologia atual se chama carisma dos fundadores: luz vivida pela primeira pessoa, porém para ser participada. Obviamente, também no plano histórico, ela constitui dado significativo e comporta conseqüências para todos os que nessa experiência entrevêem as próprias raízes carismáticas.7
Se isso é verdadeiro, quais são os critérios para interpretar corretamente AD? Adiante tentaremos alguma resposta breve. Por ora permitimo-nos desenvolver uma reflexão sobre a sobriedade da narração alberoniana.
A atitude de fundo, que se pode captar lendo AD parecenos bem expressa pela palavra distância. Distância ou separação que o autor toma de si mesmo, a fim de deixar falar os fatos; e distância dos eventos que ele observa em torno de si, e dos grandes filões de idéias e de praxes de seu tempo. Ele se afasta para enxergar melhor, captar e avaliar as riquezas com que Deus gratificou sua pessoa e a Família que fundou.
Compreendemos a história vivida por Alberione por ensimesmamento ou empatia. Devemos aprender a ler a realidade com seus próprios olhos, sem outro véu senão o da humildade, próprio dos camponeses piemonteses, a cuja categoria Alberione orgulhavase de pertencer (cf. AD 125): pessoas simples, incansáveis no trabalho, com percepção imediata, porque sempre fixa no cotidiano real.
Então AD nos aparece como vasta paisagem, não só para ser contemplada mas percorrida, através de itinerários antigos e novos, além do fio do horizonte, na perspectiva da eternidade.
Eternidade! Visão de tudo em Deus, na vida eterna, mediante a luz da glória (AD 194). É o ponto de observação mais alto e compreensivo.
Dessa perspectiva, a narração das riquezas abundantes da graça… a serem reveladas nos séculos vindouros por meio dos novos anjos da terra, os religiosos (AD 4), assume a característica de manual de oração e de meditação, como texto inspirado. Lendo AD é um pouco como ler são Paulo: somos admitidos a contemplar a realidade de Deus e do mundo numa luz maior, aquela irradiada pelo Mestre (AD 153): luz de Jesus ressuscitado, a mesma que iluminou Saulo (AD 159) no caminho de conversão de Jerusalém a Damasco, do Antigo ao Novo Testamento.
Em poucas palavras, a nossa aproximação de leitura de AD será objetiva e fecunda à medida que nos posicionarmos numa perspectiva não apenas histórica, mas também bíblica e carismática. Somente assim poderemos captar toda a riqueza de dons ou de graças que aqui nos é oferecida.
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4. As riquezas da Família Paulina

Pe. Alberione aparece homem inspirado em AD, como são Paulo quando narra aos seus leitores as próprias experiências. Tanto são Paulo como Alberione comunicam a charis, o dom e a fragrância da sua consagração, que os fez apóstolos e profetas de Cristo. Eis: profeta poderia ser o apelativo que melhor qualifica Pe. Alberione. Assim, com efeito, ele se sente - e o explicitará mais tarde - quando sob a mão de Deus evoca a própria missão particular e a da sua Família no mundo de hoje. A profecia consiste aqui, para nós, no testemunho de tantas riquezas, que estas páginas nos ajudam a redescobrir e a reavaliar.

a) Riquezas de natureza e de graça

Alberione utiliza no datilografado as palavras graça, sobrenatureza, santidade, missão, para indicar a passagem da completude: da natureza à graça, da razão à . É necessário elevar-se, acolhendo o chamado de Deus a uma missão particular, a fim de poder elevar a todos e tudo; para levar a todos a verdade do Evangelho.
Este ministério de verdade e de graça é potenciado pela elevação pessoal mediante a vida consagrada, o verdadeiro enriquecimento de todos os que se tornam religiosos e religiosas a fim de tender à mais alta perfeição, a de quem pratica também os conselhos evangélicos, e ao merecimento da vida apostólica… [e para] dar mais unidade, mais estabilidade, mais continuidade, mais sobrenatureza ao apostolado (AD 24).
O ponto de partida de toda vocação apostólica é, para Alberione, sentir em clima de fé e de zelo a urgência de Paulo: levar os homens a Deus e Deus aos homens. E é a piedade que abre os olhos e o coração do apóstolo, e o leva a perceber como à Virgem de Pentecostes, a Rainha dos Apóstolos, - que o mundo tem necessidade de Jesus Cristo Caminho Verdade Vida (AD 182).
Também a missão específica é graça, comunicação das riquezas de Deus para a salvação do mundo; e é essa graça que ilumina de significado teologal os regulamentos apostólicos e formativos, as próprias constituições dos Institutos paulinos.
Alberione é induzido pela graça ou pela santidade, outra palavra que exprime a mesma realidade, a elaborar o seu programa de vida. No sonho… pareceulhe receber a resposta. De fato, Jesus Mestre lhe dizia: Não temais, estou convosco. Daqui quero iluminar. Arrependei-vos dos pecados. Falou sobre isso com o diretor espiritual explicando como a figura do Mestre estava envolvida em luz. Ele respondeume: Tranqüiliza-te; sonho ou não, o que foi dito é santo. Faz disso um programa prático de vida e de luz para ti e para todos os membros (AD 152-154).
Dom de graça ulterior foi para Alberione a descoberta de são Paulo diante do qual admira-lhe a personalidade, a santidade, o coração, a intimidade com Jesus: o apóstolo universal, modelo de santidade e de dedicação ao Evangelho. Daqui a regra: A primeira preocupação da Família Paulina será a santidade da vida, a segunda a santidade da doutrina (AD 90). A experiência paulina confirmará sempre que a ação exterior deriva de ação interior da graça. Assim tudo: natureza, graça e vocação, para o apostolado (AD 100). A missão é caridade para as gentes. Sem a intimidade com o Senhor não é possível tornarse realmente apóstolos.
Portanto, o exame de consciência, sobretudo em momentos de dificuldade particular, faz-se a respeito de possíveis impedimentos à ação da graça, a serem tirados para dar espaço à presença do Mestre divino em casa. Com ele torna-se possível crescer em sabedoria, idade e graça, até a plenitude e a perfeita idade de Jesus Cristo; até a identificação com ele, ou cristificação.

b) Riqueza de perspectivas históricas

Juntamente com os eventos de graça narrados nessas suas memórias, outra riqueza quer-nos parecer consistir justamente na história em si mesma e na vastidão do seu horizonte.
Alberione fala de dupla história que revisita em contexto de meditação e de oração: A história da misericórdia divina para cantar Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens. E mais, a história humilhante da incorrespondência ao excesso da caridade divina e compor um novo e doloroso Miserere (AD 1).
O Criador é o protagonista da história a qual é mestra que ensina sempre; melhor dito, é lição contínua do Mestre divino. Por isso o jovem Alberione lê com paixão a história nas suas dimensões variadas: História universal, História da Igreja, História da literatura universal, História da arte, História da guerra, da Navegação, da Música especialmente, do Direito, das Religiões, da Filosofia.
Pela história ele viu confirmada a universalidade da salvação e conseqüentemente da missão. Do estudo e, depois, do ensino da história ele aprendeu a pensar grande, ecumenicamente; e auferiu daí empenho correspondente no plano de agir: a decisão de intervir factivamente no próprio âmbito da vida, não como gregário, e sim como guia que arrasta, fundador de uma instituição que deve chegar apostolicamente a todos. Eis porque, narrando AD, Alberione insere a sua pequena história na história universal da salvação.
Tendo-se tornado pessoa pública por vocação, ele não entende mais retirar-se na vida privada, e assume a vocação ao sacerdócio, notada desde a infância, como chamado à coresponsabilidade para a salvação do mundo. Compreende, portanto, a necessidade de se preparar para ela, de desenvolver toda a personalidade humana para a própria salvação e para um apostolado mais fecundo; mente, coração, vontade (AD 22).
As circunstâncias, também as mais dolorosas, ajudaramno a crescer e a agir mais eficazmente para o bem dos outros.
Fazer história com a Igreja do próprio tempo significa caminhar com o homem no seguimento de Cristo. E isso oferece segurança de direção no meio das numerosas correntes da cultura, entre progressistas e conservadores, entre discípulos do evangelho e mestres de autoridade duvidosa. Pe. Alberione aprende a pensar e a trabalhar pastoralmente.
As citações de eventos e datas históricas sucedemse ao longo de todo AD e todas mostram a importância que Alberione atribui à historicização da sua obra; vale dizer, fazer história da salvação juntamente com os homens da própria geração. A viver, também se é necessário, perigosamente, disposto a pagar pessoalmente pela fidelidade à tarefa que lhe foi confiada pela Providência.
Existem na vicissitude pessoal de Alberione momentos em que a vida está em perigo, também pelo excesso de trabalho. Através de grave crise de saúde, que parece comprometer de modo irreparável a continuidade da sua obra, ele experimenta que sem Deus nada é possível e que a vida deve ser jogada na fé.
O ir para frente com fé em caminhos novos, forte de caridade apostólica que renova o impulso missionário e organizador de Paulo, tornase assim expressão ulterior da história salvífica e, em nosso caso, paradigma carismático para toda a Família Paulina.

c) Riqueza de temas espirituais

Há uma riqueza antropológica, compendiada na tríade mente, vontade e coração. Todo o homem é para Deus e para o mundo. E como o homem deve ser salvo na totalidade de seus componentes, assim toda a riqueza pessoal de dotes humanos deve ser expendida para o apostolado. Também a formação deve ser integral: Todo o homem em Jesus Cristo, para o amor total a Deus: mente, vontade, coração, forças físicas (AD 100).
Há uma riqueza teologal e ascética, que permite apropriar-se de todo o Cristo, de modo integral, na devoção e no método caminho, verdade e vida. Portanto, a Família Paulina aspira a viver integralmente o Evangelho de Jesus Cristo, Caminho, Verdade e Vida, no espírito de são Paulo… (AD 93). E assim a oração, a formação, o apostolado e os estudos se orientem e se cultivem com o escopo de conhecermos sempre mais intimamente Jesus Cristo, nosso Mestre Divino, que é o Caminho, a Verdade e a Vida, a fim de que o mesmo Jesus Cristo se forme plenamente em nossa mente, em nossa vontade e em nosso coração; desse modo nos tornaremos para as almas mestres experimentados, se primeiro formos discípulos humildes e diligentes de Cristo (AD 98).
Deus Todo: a Trindade. Pe. Alberione não nomeia freqüentemente o Espírito Santo, referindose com mais freqüência à graça. Tudo deve terminar num solene Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens, cantado pelos anjos em honra da SantíssimaTrindade, como programa de vida, apostolado e redenção operada por Jesus Cristo; o paulino vive em Cristo (AD 183).
A Igreja, entendida globalmente como Corpo de Cristo, povo de Deus e guia hierárquica, é riqueza inexaurível: ela é plena das riquezas de Deus, pois resume toda a doutrina do Mestre, seus exemplos, sua vida. Dela a Família Paulina haure desde seus inícios, isto é, desde que foi decidida sua primeira fundação no centro da cristandade. Estamos em Roma para sentir melhor que a Família Paulina está a serviço da Santa Sé; para haurir mais diretamente da Fonte, o Papado, a doutrina, o espírito, a atividade apostólica; Roma é mestra do mundo e conserva as portas abertas para a humanidade; de Roma partem os enviados para todas as direções (AD 115).
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5. Entre história e atualidade

AD nasceu durante o ano de 1953. No arco daqueles meses a operosidade proverbial de Pe. Alberione atingira o seu nível máximo. Em torno dele ferviam empresas e lançamentos em todas as frentes: e ele, habituado desde sua adolescência a respirar o ar dos grandes espaços e a perceber sinais da Igreja universal, sentia congenial a si mesmo o despertar primaveril sucessivo à paz de 1945 e conciliado pela autoridade carismática do papa Pio XII.
Iniciativas de grande fôlego entrelaçavamse com movimentos locais de forte impacto popular, como a cruzada por um Mundo Melhor e a Peregrinatio Mariae: expressões de despertar mais vasto, favorecido pelas celebrações do jubileu de 1950 e pelo Ano mariano de 1954. São conhecidos os debates teológicos e os tímidos sinais de reforma - litúrgica, pastoral etc. - que escandiram o caminho da Igreja naqueles anos, e aos quais Pe. Alberione quis associar-se com artigos nos periódicos Vita Pastorale, Orizzonti e Madre di Dio, por exemplo, em favor de renovação pastoral e de relançamento mariano, com a proposta de definição dogmática da mediação universal de Maria. Debates, às vezes acompanhados de sofrimentos, vetos e tensões político-sociais, que prepararam o clima para o concílio Vaticano II.
Tampouco subtraíamse ao Pe. Alberione os grandes eventos da política nacional e internacional daquele período (pense-se na guerra fria e nas vicissitudes que acompanharam a morte de Stalin em 1953); eventos que seguia pelos jornais e às vezes pelos contatos com pessoas empenhadas diretamente na vida pública. É sabido que Alberione não era inclinado a alinhamentos fáceis, e como seguia as orientações da Igreja inspirando-se preferencialmente no Evangelho e observando os fatos como que do alto, com o olhar em Deus.
Dentro desse quadro desenvolvia-se a sua mais intensa atividade de fundador, imerso em problemas imediatos, quais, por exemplo, os trabalhos para o acabamento e a decoração do santuário Rainha dos Apóstolos, que queria inaugurar no ano mariano, o controle dos trabalhos, a pungência pelas despesas eram tais que absorviam grande parte do tempo e das energias; porém não representavam senão uma parte dos aspectos exteriores da sua atividade. Muito mais pungentes eram as preocupações por todas as igrejas (cf. 2Cor 11,28), ou seja, os cuidados dedicados à construção espiritual jurídica, mas não estava sequer completa quanto a membros, pois faltava ainda a Congregação das Irmãs Apostolinas e todos os Institutos agregados.
O roteiro para a aprovação canônica das congregações femininas corria expeditamente, depois da grave crise de 1946-1948 que ameaçara a vida das Irmãs Pias Discípulas. A 15 de março de 1953 chegou a aprovação pontifícia das Filhas de São Paulo, e a 22 de abril de 1953 a aprovação diocesana das Irmãs de Jesus Bom Pastor.
Isso, porém, não isentava o fundador de estar presente nem de lhe solicitar o caminho, quando se perfilavam dificuldades ou estase.
Ao mesmo tempo Pe. Alberione providenciava à formação espiritual e apostólica das comunidades com empenho de catequese que se explicitava nas meditações e nos sermões, quase diários, aos grupos presentes nos arredores de Roma, e sobretudo às comunidades reunidas na cripta do Santuário. Os ciclos de tais sermões que se sucediam de 1952 a 1954 entremeados pelas viagens, constituem um curso de formação que antecipa os de Ariccia (cf. Ut perfectus sit homo Dei, 1960) e que nos oferecem leitura basilar dos valores fundamentais do nosso carisma.
Ao mesmo tempo acompanhava a obra da organização do apostolado, promovida pelo Pe. Alberione com iniciativas que viram a luz naqueles meses que constituem antecipações proféticas de desenvolvimentos sucessivos: pensese na constituição dos centros editoriais nacionais e internacionais; nos centros de difusão e propaganda racional; no empenho pelos documentários catequéticos e a produção de longa metragens, como Mater Dei e O Filho do Homem etc.
Enfim, mas não por último. O empenho da presença e animação às comunidades longínquas com as grandes viagens intercontinentais. Obra mais pesada e estressante entre todas, iniciada no imediato pós-guerra, com a primeira viagem à América (1946), continuada com o périplo do globo, para o Oriente e as Américas (1949) e retomada em 1952-1953 com nova visita aos países do Oriente, da Oceania e do continente americano. Durante essas viagens, como testemunharam as superioras gerais das Filhas de São Paulo e das Pias Discípulas, Mestra Tecla e Madre Lúcia Ricci, que o acompanhavam, - Pe. Alberione atravessou situações de saúde tão críticas a ponto de duvidar da sua vida. Nunca, porém, quis mudar trajetos nem programas, preocupado somente em respeitar os empenhos assumidos com as comunidades que o esperavam na próxima etapa. Um documento do espírito que presidia essas viagens constituio as anotações redigidas no avião: esboços de orações, como as Invocações a Jesus Mestre redigidas enquanto sobrevoava os Andes americanos, ou considerações de caráter missionário, como as notas sobre a situação religiosa dos povos vistos do alto, enquanto sobrevoava a cadeia do Himalaia e o subcontinente indiano (cf. os artigos do San Paolo dedicados a essas viagens e colecionados em Carissimi in San Paolo, pp. 1007-1043).
Entre uma viagem e outra, Alberione escrevia AD. É difícil excluir da sua reflexão o hoje e o mundo, que ele perscrutava não como turista, e sim com olho penetrante do apóstolo e do profeta. Os eventos vividos pelo interior ou lidos no jornal, tornam-se argumentos de meditação. Aprendera do Côn. Chiesa a transformar tudo em objeto de meditação e de oração ao Mestre Divino: para adorar, agradecer, propiciar, pedir (AD 68).
Informar-se a respeito do mundo é a condição prévia de toda abertura apostólica. E o conhecimento deságua em programa mundial
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6. Lições conclusivas e sugestões para a leitura

Desejando concluir com algumas ponderações úteis para leitura frutuosa e para correta atualização de AD, nos parecem oportunos os acenos seguintes:
a) Como todas as realidades em evolução, muitos eventos narrados ou somente acenados em AD adquirem pleno significado somente da execução que tiveram na atividade e nos escritos posteriores do fundador. Fundamentalmente importante para a compreensão de AD são, portanto, as cinqüenta Instruções ministradas por Alberione em Ariccia nos exercícios espirituais de 1960, publicadas em volume único em Ut perfectus sit homo Dei (Edizioni San Paolo 1998). (Edição brasileira em tradução). Esse livro que, de algum modo, integra AD, constitui talvez o testamento do fundador para a interpretação autêntica da sua herança.
b) Não basta repetir literamente, no hoje e nos diversos contextos culturais nos quais vive e opera a Família Paulina, o que o fundador escrevia em 1953, para entrar eficazmente na corrente de história carismática por ele iniciada.
c) Atualização contínua de mentalidade e de praxe é importante para estabelecer a continuidade com as riquezas do texto: caminhar com os tempos, progredir, organizar, vagar com a mente no futuro, trabalhando no próprio ambiente.
d) Visões, inspirações ou sonhos também são úteis para descobrir a vontade de Deus, além dos limites de intelectualismo árido, de legalismo sufocante ou de cientismo que excluíssem o sobrenatural ou a graça.
e) O discernimento contínuo é indipensável e, portanto, a direção espiritual, o conselho, as leituras com vistas ao próprio crescimento e à clareza da visão pastoral acerca das necessidades do mundo.
f) Cumpre assumir sem temores a progressividade ou a modernidade, como tensões cotidianas para o cumprimento da nossa vocação apostólica.
g) A cooperação entre as instituições e o laicado é condição para desenvolver a Família Paulina, de sorte a realizar efetivamente o programa missionário e espiritual de são Paulo vivo hoje.
h) Faz-se necessário reavaliar o gênero literário da narração como veículo para comunicar a mensagem do Mestre Divino, no estilo dos Evangelhos e dos Atos dos Apóstolos.
i) Concluindo, reavalia-se o estudo da história, não somente como memória do passado, mas também como magistra vitae para assenhorear-se das raízes paulinas e para crescer em harmonia com elas.
Estas e outras lições poderiam ser condensadas em expressões mais simples ainda, quais: o primado do Espírito sobre os meios, do sobrenatural sobre o natural, da graça sobre a instituição; a onipotência da fé, não obstante as deficiências humanas: o apóstolo pode ser frágil e pobre, mas com Deus tudo lhe é possível.
Concluindo, lendo AD nos enriquecemos com um memorial e, juntamente, entrevemos programa novo, empenhativo, de coisas para realizar: percurso de riquezas que ainda hoje estão por adquirir. AD revela-se-nos, portanto, não apenas como história de eventos passados, e sim como chave de leitura para o nosso presente e profecia para o futuro da inteira Família Paulina.
Roma, 4 de abril de 1998

A. Colacrai - E. Sgarbossa


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1 Testamento recolhido pelo Pe. Antônio da Silva e publicado em Conoscere Don Alberione, I (1982), 35s.

2 San Paolo, Junho-agosto de 1954. Vejase a “Saudação” dirigida aos visitantes da Exposição Paulina, montada em Alba (Cuneo) em agosto-setembro de 1954. Existe também conservado um sermão do Primeiro Mestre para recordar a data de 20 de agosto de 1914.

3 Opúsculo de 48 páginas, formato 11,5x 17,7, sem indicação de lugar de edição nem de data. Também as Filhas de São Paulo fizeram uma edição, datada de 2 de outubro de 1969, 56 páginas, formato 11 x 15.

4 Cf. F. Vernet, em DS IV (1935) 1141-1159.

5 Em versão latina: Poemata Historica de Seipso, particularmente o poema XI, de 1949 versos.

6 De Inácio veja-se o texto crítico em Monumenta Ignatiana e Fontes Narrativas I, 323-507. - Este texto reveste-se de interesse particular para o infatigável “discernimento” espiritual e psicológico que o A. faz de si e também pelo fato que adota a terceira pessoa, como fará Pe. Alberione em AD.

7 Cf. Evangelica testificatio, 11: exortação apostólica de Paulo VI, em AAS (1971) 497-526: e Mutuae Relationes 11-12, notas diretrizes da S. Congregação para os religiosos e os Institutos Seculares, e dos Bispos, em AAS 70 (1978) 473-506. - F. Ciardi I Fondatori uomini dello Spirito, Cità Nuova 1982, onde Pe. Alberione é analisado em diversas páginas.